sábado, 24 de janeiro de 2015

Estórias que ouvi por aí

Gosto de criar contos. Rápidos e fáceis de serem lidos e entendidos. Não são estórias reais, mas são baseadas em fatos reais. Até hoje os meus contos não haviam saído dos meus pensamentos. Hoje resolvi tira-los daqui de dentro. Lá vai. Lembrem-se, são baseadas em fatos reais.

Um rapaz chamado Denis, de vinte anos, cuja mãe buscou ser feliz com um homem nada bom, e o pai morava num estado distante e não tinha a menor intenção de ter contato com ele, cometeu um erro numa empresa e foi mandado embora por justa causa. Lá ele havia conhecido e apaixonou-se por uma mocinha de dezenove anos, muito bonita chamada Letícia. Ele envolveu Letícia na transação errada e a menina também acabou sendo pressionada a sair do emprego. Apesar do deslize, Denis foi apresentado a família da moça. Letícia contou pra família toda a vida do namorado com sua família. O abandono da mãe, o desprezo do pai. Não tinha para onde ir pois o aluguel do apartamento de alto valor que era dividido com a mãe, ficou pesado para ele que ganhava pouco, pagar. Pois bem, a família da moça, que era muito pobre porém honesta e cristã, acolheu Denis pois imaginavam que um rapaz na condição dele precisava mesmo de uma família acolhedora para ajudar-lhe a ser um bom homem. Ele arrumou um emprego temporário noturno num supermercado e estava feliz. Enchia a namorada de presentes. Queria também agradecer a família da moça dando-lhes presentes, apesar de ganhar pouco. Denis era também muito vaidoso. Cremes para os cabelos, para a pele, desodorantes caros, shampoos. Todos os dias chegava com mercadorias que para ele não condizia com o salário que ganhava. A mãe de Letícia foi percebendo e foi ficando desconfiada com tantos produtos aparecendo todos os dias. Denis era também muito ambicioso. Sentia uma vontade imensa de vencer. Mas sua intenção era vencer da maneira mais fácil e rápida que pudesse. Pois bem. A família de Letícia percebeu as atitudes erradas do rapaz e o chamou para uma conversa. Disse-lhe o pai da moça:
_ Olha, meu rapaz, estou muito desconfiado de suas atitudes aparecendo todos os dias com mercadorias vindas do super-mercado onde trabalha e não trazendo nota fiscal. Vou devolver-lhe tudo. Vou lhe dizer uma coisa. Você se deparou com uma família honesta que trabalha muito para obter tudo o que tem. Não vou permitir que entre pra minha família se não for um rapaz com o mesmo pensamento e de bom caráter. Saiba que minha filha é filha única e não vou deixar que nenhum forasteiro a faça de boba. Se quiser ser feliz com minha filha e ser bem acolhido nesta família terá que nos mostrar que tem boas intenções e que quer mudar de vida, agindo como um homem digno. Se não for assim, pode nos esquecer e partir pra bem longe. Sei perfeitamente que você foi mandado embora da outra empresa por justa causa e acolhi você mesmo assim pois minha filha havia me contado o triste destino com seus pais. Fiquei penalizado com sua situação pois uma família desestruturada como a sua deve ter prejudicado o seu caminho. Mas estou aqui dando-lhe esta chance de entrar para uma boa família. Somos pobres porém honestos e felizes. E posso garantir-lhe que vale a pena ser honesto e trabalhador. É pegar ou largar. Então o que vai ser? Você fica ou vai? Se for para ficar, terá que ser como nós, se não, vá embora e siga o seu caminho.
O rapaz ficou muito envergonhado pois não tinha como se defender. Estava mesmo sendo trapalhão. Queria agradecer a família comprando-lhes presentes caros mas estava pegando sem pagar. Denis não teve outra alternativa. Não tinha para onde ir. Claro que teria que "pegar". Não tinha outra opção. No início não foi fácil pra ele. Sem perfumes, sem shampoos caros, sem presentes, comida simples, arroz, feijão, ovo, salsicha, ônibus para o trabalho num calor intenso e desanimador, marmita, suor, dia após dia. Uma vida sacrificada e com poucos momentos de descanso. Anos após anos.
Vinte anos se passaram e nas lembranças de Denis que fez faculdade, formou-se em Administração e hoje trabalha numa empresa renomada, vieram as palavras de seu sogro, já falecido. Honestidade, família, felicidade. Ele pensou e agradeceu a Deus por ter se  deparado com essas pessoas tão humildes e tão dignas. Pois foi graças a elas que hoje ele tem dois lindos filhos. Diana de dez anos e Lucas de oito anos. Letícia, uma esposa maravilhosa e dedicada, uma casa grande e bem construída, carro na garagem, trabalho bem remunerado. Sua sogra mora com eles e ajuda a tomar conta dos netos para os pais irem trabalhar.
E pensar que ele fora obrigado pelo pai de sua esposa, a aceitar toda a vida humilde que eles tinham para poder ser acolhido e permanecer na família. Toda a felicidade que ele sentia naquele momento de reflexão, começara ali. Naquele exato momento em que ele "PEGOU" não as mercadorias do super-mercado mas a oportunidade que seu sogro havia lhe dado de ser acolhido no seio de uma verdadeira família. Sua mãe biológica morreu de overdose num apartamento cujo aluguel não havia sido pago por seu amante havia meses. Seu pai, apesar de várias tentativas de entrar em contato, não quis saber de aproximação. A sua própria família biológica o havia dispensado mas, em seu caminho, uma outra família o recebera de braços abertos. E o havia ensinado o que é o amor. Que apesar dos percalços da vida, apesar da pobreza, devemos sim ser honestos, trabalhar e estudar com afinco. Família amorosa e felicidade foi o que ele encontrou nessa jornada. Benditos sejam todos aqueles que escolhem o caminho do bem, pensou ele. Agradeceu mais uma vez a Deus, beijou sua esposa e foi para o trabalho, feliz da vida.