Contos: Estórias que ouvi por aí...
ROCHEDO
O significad...: Estórias que ouvi por aí... ROCHEDO O significado da palavra rochedo é gr ande massa de rocha escarpada. Temos um exemplo nesta bela fra...
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Estórias que ouvi por aí...
ROCHEDO
O significado da palavra rochedo é grande massa de rocha escarpada. Temos um exemplo nesta bela frase de Thomas Jefferson:
"Para os problemas de estilo, nada com a corrente; para os problemas de princípios, sê firme como um rochedo."
Como se pode ver, rochedo é sinônimo de fortaleza, bravura, e porque não dizer, firmeza de caráter? Pois é. Mas e um animal tem isso? Sabemos que alguns animais são fiéis aos seus donos mas essa fidelidade chega a esse ponto? Eles não pensam é certo mas têm sentimentos. Os sentimentos dos animais irão além daquilo que podemos definir ou entender? Quem sabe? Vamos então a comovente estória de Rochedo e sua dona, a Srª Odília.
Numa pequena cidade nordestina, vivia D. Odília e seus cinco filhos. Com parcos recursos, a pobre senhora tinha que trabalhar de sol a sol para dar o sustento de seus rebentos. O pai, um senhor de engenho muito cruel, era casado com outra e mantinha a pobre mulher num casebre distante, bem afastado de tudo e todos para que não soubessem das "suas". Uma não sabia da outra. Mesmo sendo rico, o homem não dava o que necessitavam os filhos para a vivência digna. Então, D. Odília era quem fazia a parte do homem e da mulher. O filho mais velho, tinha apenas dez anos. Mas era o seu ajudante na longa caminhada até a feira para a venda de seus quitutes famosos, deliciosos e tão aguardados pelos clientes. Mas um menino de dez anos não tem a resistência de um Rochedo. "Ah, Rochedo, meu amigo fiel", dizia D. Odília ao seu parceiro vendo o peso que carregava em seu lombo surrado. "Sem tu, que seria de mim? Sem marido vivo, sem tu, não". Há seis anos o burrinho fiel pertencia a D. Odília. Para ela, Rochedo não era só um burro como outro qualquer. Era o seu braço forte o seu ganha pão, o seu suporte nas horas difíceis. E como suportava tudo que lhe empilhava no lombo. Sem empacar. Parecia saber da necessidade da mulher de ter um alguém para lhe carregar pesos insuportáveis. Normalmente burros empacam é da sua natureza. Mas Rochedo, não. Ele era como o nome. E fez fama. Dezenas de senhores ofereciam dinheiro alto para comprar o animal. D. Odília não aceitava.
- De jeito nenhum! Quero nãããão! Rochedo é meu sexto filho. Lhe tenho muito apreço.
E o bicho era bem tratado. "é o mínimo que posso fazer por tu, meu filho", dizia D. Odília fitando os olhinhos dele. E era correspondida no olhar. As vezes parecia querer dizer-lhe algo. Como quem a perceber a situação da mulher e querer abrandar sua sofrência.
Mas no sertão de 1940, alguns homens são bestas de duas pernas. O pai das cinco crianças arranjou outra terceira mais nova e deu um ultimato a D. Odília.
- Vá embora daqui com seus filhos!
- Vô não! Tenho pra onde ir não! Eles são seus filhos também, homi!
O infeliz sacou uma arma, enfiou-lhe na testa e disse:
- Vai sair viva ou morta, o quê que tu prefere?
- Viva.
Chorando, lá se foi D. Odília, seus cinco filhos, a trouxinha de roupas e Rochedo que como sempre carregava o peso maior. A chuva era forte, os raios e trovões eram assustadores, a caminhada era longa. Em seus olhos não se sabia o que era lágrima e o que era água da chuva.
Ao chegar na casa do cumpadre, desfaleceu.
- Acode, meu véio. A cumadre tá caída no portão!
Foi socorrida e acolhida. Felizmente nem todos os homens do local eram bestas de duas pernas.
Refeita, no dia seguinte foi a feira. Tinha que partir com as crianças. Não podia levar Rochedo. Seu companheiro de tantas batalhas tinha que ficar. Quando anunciou sua venda, foi um Deus nos acuda! A homarada se aglomerou e foi um tal de dou mais, dou mais, venda pra mim. Até que Rochedo foi negociado e lá mesmo na feira, D. Odília, não se conteve:
- Oh, meu Deus!Rochedo, meu filho, me perdoe.
- Não chore não, D. Odília, ele será bem cuidado! É uma promessa que lhe faço! Acalme-se!
- Ah, Rochedo, meu filho. Padre Cicero há de me perdoar e tu também. Um dia eu hei de voltar e te compro de volta!
Inconsolável lá se foi D. Odília e suas cinco crianças em busca de um amanhã melhor. Rochedo não pode ir.
Anos depois, D. Odília, inconformada com a separação de seu prezado ajudante, procurou saber notícias e escreveu uma carta aos compadres, querendo notícias.
Recebeu resposta e dizia assim a carta:
-Cumadre Odília, que esta lhe encontre com saúde e as crianças também. O seu companheiro já não existe mais. Foi ajudar São Francisco lá no céu. É, céu, porque uma criatura que nem ele só pode estar lá mesmo. Veja só o que se passou logo que a senhora se foi. O bichinho não comia, não bebia, não dormia. Ficou assim por vários dias. O cumpadre cuidou bem dele. Não quis nem botar Rochedo pra trabalhar pensando na promessa que lhe fez. Até que lhe arrumou uma tarefa mais leve. Tinha um sobrinho cego dos olhos e pôs Rochedo para tomar conta. Quando se via Rochedo amarrado nos boteco, já se sabia, ceguinho já tá bebendo de novo. Vivia caindo pelas ruas mas o burro lhe garantia o retorno são e salvo pra casa. Não precisava nem dele estar acordado. Era só subir. Rochedo sabia o caminho tivesse onde tivesse. O ceguinho era um sujeito desgostoso da vida por causa de sua condição e passou a beber por demais. Seu único companheiro era mesmo Rochedo, seu amigo de tantas batalhas, cumadre. Um dia o pobre cego resolveu que ia tirar a vida. Já que não prestava pra nada, ia dar cabo dela. Matutou, matutou em como seria. De revolver, não tinha. Uma facada no bucho, quem sabe? Nem cozinha ele tinha. Só um quarto véio pra dormir. Envenenado? Quem lhe iria servir a beberagem? Foi quando ouviu o apito do trem. Aí teve a infeliz idéia de se jogar. Aí o trem fazia o resto do serviço. Sabia os horários. Não ia usar Rochedo pois além de ser maldade com o bichinho, o burro sabia parar para o trem passar e depois seguir em frente. No dia seguinte, foi pro bar, tomou as suas talagadas e foi conversar com Rochedo. O infeliz tinha a estranha mania de conversar com o burrinho. Contou-lhe então que naquela noite não iria mais precisar dele para levar pra casa. E contou também o que pretendia fazer. Olha cumadre, por essa luz que me alumia, parece até que Rochedo ouviu e entendeu os planos do coitado. Quando o ceguinho quis carregar Rochedo pra amarrar, esse burro empacou dum jeito que nunca empacou na vida! Foi um furdunço só! E zuava, e pulava, e fez tanto barulho que o desenfeliz resolveu adiar o plano de dar cabo da vida. No dia seguinte contou a ocorrência para o tio, o homem que lhe comprou Rochedo. Aí ele contou pro ceguinho que Rochedo lhe salvou a vida de propósito pois nunca se vira nos dez anos de vivência daquele burro, empacar desse jeito. O ceguinho ficou tão comovido que decidiu viver. Entendeu que se um burro teve a querência de lhe poupar da morte, quem era ele pra não entender que a vida, de qualquer maneira, era pra ser vivida.
Um abraço cumadre, volte pra nos visitar, será sempre bem vinda.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
ROCHEDO
O significado da palavra rochedo é grande massa de rocha escarpada. Temos um exemplo nesta bela frase de Thomas Jefferson:
"Para os problemas de estilo, nada com a corrente; para os problemas de princípios, sê firme como um rochedo."
Como se pode ver, rochedo é sinônimo de fortaleza, bravura, e porque não dizer, firmeza de caráter? Pois é. Mas e um animal tem isso? Sabemos que alguns animais são fiéis aos seus donos mas essa fidelidade chega a esse ponto? Eles não pensam é certo mas têm sentimentos. Os sentimentos dos animais irão além daquilo que podemos definir ou entender? Quem sabe? Vamos então a comovente estória de Rochedo e sua dona, a Srª Odília.
Numa pequena cidade nordestina, vivia D. Odília e seus cinco filhos. Com parcos recursos, a pobre senhora tinha que trabalhar de sol a sol para dar o sustento de seus rebentos. O pai, um senhor de engenho muito cruel, era casado com outra e mantinha a pobre mulher num casebre distante, bem afastado de tudo e todos para que não soubessem das "suas". Uma não sabia da outra. Mesmo sendo rico, o homem não dava o que necessitavam os filhos para a vivência digna. Então, D. Odília era quem fazia a parte do homem e da mulher. O filho mais velho, tinha apenas dez anos. Mas era o seu ajudante na longa caminhada até a feira para a venda de seus quitutes famosos, deliciosos e tão aguardados pelos clientes. Mas um menino de dez anos não tem a resistência de um Rochedo. "Ah, Rochedo, meu amigo fiel", dizia D. Odília ao seu parceiro vendo o peso que carregava em seu lombo surrado. "Sem tu, que seria de mim? Sem marido vivo, sem tu, não". Há seis anos o burrinho fiel pertencia a D. Odília. Para ela, Rochedo não era só um burro como outro qualquer. Era o seu braço forte o seu ganha pão, o seu suporte nas horas difíceis. E como suportava tudo que lhe empilhava no lombo. Sem empacar. Parecia saber da necessidade da mulher de ter um alguém para lhe carregar pesos insuportáveis. Normalmente burros empacam é da sua natureza. Mas Rochedo, não. Ele era como o nome. E fez fama. Dezenas de senhores ofereciam dinheiro alto para comprar o animal. D. Odília não aceitava.
- De jeito nenhum! Quero nãããão! Rochedo é meu sexto filho. Lhe tenho muito apreço.
E o bicho era bem tratado. "é o mínimo que posso fazer por tu, meu filho", dizia D. Odília fitando os olhinhos dele. E era correspondida no olhar. As vezes parecia querer dizer-lhe algo. Como quem a perceber a situação da mulher e querer abrandar sua sofrência.
Mas no sertão de 1940, alguns homens são bestas de duas pernas. O pai das cinco crianças arranjou outra terceira mais nova e deu um ultimato a D. Odília.
- Vá embora daqui com seus filhos!
- Vô não! Tenho pra onde ir não! Eles são seus filhos também, homi!
O infeliz sacou uma arma, enfiou-lhe na testa e disse:
- Vai sair viva ou morta, o quê que tu prefere?
- Viva.
Chorando, lá se foi D. Odília, seus cinco filhos, a trouxinha de roupas e Rochedo que como sempre carregava o peso maior. A chuva era forte, os raios e trovões eram assustadores, a caminhada era longa. Em seus olhos não se sabia o que era lágrima e o que era água da chuva.
Ao chegar na casa do cumpadre, desfaleceu.
- Acode, meu véio. A cumadre tá caída no portão!
Foi socorrida e acolhida. Felizmente nem todos os homens do local eram bestas de duas pernas.
Refeita, no dia seguinte foi a feira. Tinha que partir com as crianças. Não podia levar Rochedo. Seu companheiro de tantas batalhas tinha que ficar. Quando anunciou sua venda, foi um Deus nos acuda! A homarada se aglomerou e foi um tal de dou mais, dou mais, venda pra mim. Até que Rochedo foi negociado e lá mesmo na feira, D. Odília, não se conteve:
- Oh, meu Deus!Rochedo, meu filho, me perdoe.
- Não chore não, D. Odília, ele será bem cuidado! É uma promessa que lhe faço! Acalme-se!
- Ah, Rochedo, meu filho. Padre Cicero há de me perdoar e tu também. Um dia eu hei de voltar e te compro de volta!
Inconsolável lá se foi D. Odília e suas cinco crianças em busca de um amanhã melhor. Rochedo não pode ir.
Anos depois, D. Odília, inconformada com a separação de seu prezado ajudante, procurou saber notícias e escreveu uma carta aos compadres, querendo notícias.
Recebeu resposta e dizia assim a carta:
-Cumadre Odília, que esta lhe encontre com saúde e as crianças também. O seu companheiro já não existe mais. Foi ajudar São Francisco lá no céu. É, céu, porque uma criatura que nem ele só pode estar lá mesmo. Veja só o que se passou logo que a senhora se foi. O bichinho não comia, não bebia, não dormia. Ficou assim por vários dias. O cumpadre cuidou bem dele. Não quis nem botar Rochedo pra trabalhar pensando na promessa que lhe fez. Até que lhe arrumou uma tarefa mais leve. Tinha um sobrinho cego dos olhos e pôs Rochedo para tomar conta. Quando se via Rochedo amarrado nos boteco, já se sabia, ceguinho já tá bebendo de novo. Vivia caindo pelas ruas mas o burro lhe garantia o retorno são e salvo pra casa. Não precisava nem dele estar acordado. Era só subir. Rochedo sabia o caminho tivesse onde tivesse. O ceguinho era um sujeito desgostoso da vida por causa de sua condição e passou a beber por demais. Seu único companheiro era mesmo Rochedo, seu amigo de tantas batalhas, cumadre. Um dia o pobre cego resolveu que ia tirar a vida. Já que não prestava pra nada, ia dar cabo dela. Matutou, matutou em como seria. De revolver, não tinha. Uma facada no bucho, quem sabe? Nem cozinha ele tinha. Só um quarto véio pra dormir. Envenenado? Quem lhe iria servir a beberagem? Foi quando ouviu o apito do trem. Aí teve a infeliz idéia de se jogar. Aí o trem fazia o resto do serviço. Sabia os horários. Não ia usar Rochedo pois além de ser maldade com o bichinho, o burro sabia parar para o trem passar e depois seguir em frente. No dia seguinte, foi pro bar, tomou as suas talagadas e foi conversar com Rochedo. O infeliz tinha a estranha mania de conversar com o burrinho. Contou-lhe então que naquela noite não iria mais precisar dele para levar pra casa. E contou também o que pretendia fazer. Olha cumadre, por essa luz que me alumia, parece até que Rochedo ouviu e entendeu os planos do coitado. Quando o ceguinho quis carregar Rochedo pra amarrar, esse burro empacou dum jeito que nunca empacou na vida! Foi um furdunço só! E zuava, e pulava, e fez tanto barulho que o desenfeliz resolveu adiar o plano de dar cabo da vida. No dia seguinte contou a ocorrência para o tio, o homem que lhe comprou Rochedo. Aí ele contou pro ceguinho que Rochedo lhe salvou a vida de propósito pois nunca se vira nos dez anos de vivência daquele burro, empacar desse jeito. O ceguinho ficou tão comovido que decidiu viver. Entendeu que se um burro teve a querência de lhe poupar da morte, quem era ele pra não entender que a vida, de qualquer maneira, era pra ser vivida.
Um abraço cumadre, volte pra nos visitar, será sempre bem vinda.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
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